quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Esoterismo, espiritualismo, ocultismo, metafisicas e questões fundamentais: Deus, religião, Bíblia e ateísmo

Se quisermos aceitar a possibilidade de “Deus”, enquanto experiência, existir, então, na minha opinião, talvez possamos dizer duas coisas: Por um lado, “Deus” precede a religião; por outro, “Deus” tem sido uma construção mental, social e cultural, tendo sido moldado de várias maneiras e feitios, adquirindo características bem humanas, antropomórficas. Podemos dizer que o Homem (certos homens) criou uma entidade suprema à sua semelhança.

Podemos dizer que em certos casos houve um aproveitamento e arranjo por parte das religiões? Sim, sem dúvida! Mas isso não invalida a existência dessa realidade. Aliás, isso pouca importância tem, porque, para algumas pessoas, essa experiência foi demasiado real, as nossas palavras não a podem descrever convenientemente (existe essa dificuldade), ultrapassa a nossa limitada compreensão, nenhuma religião pode “raptá-la” apenas para si própria, e muito menos reivindicar exclusividade e privilégios especiais, porque tudo isso são apenas simples pormenores, poeiras triviais dentro de uma ampla realidade. É importante lembrar que nós não conhecemos toda a realidade…

Essas experiências são coisas do passado? Não! Essas pessoas estão aí, elas existem! Atravessa todas as culturas, idades, nível cultural, económico, tanto faz ser ateu, religioso ou outra coisa qualquer, ninguém fica de fora! Mas como podemos provar que eles não estão iludidos?! Dizem todos a mesma coisa?! São questões importantes, mas devemos ter cuidado com a ânsia em provar seja o que for, muito menos converter desesperadamente as pessoas a isto ou aquilo. Contudo, isso não significa que não seja importante estimular e conceder espaço para a partilha e estudo de certas experiências, e também não significa que não haja mensagens importantes!

Por exemplo, sobre a Bíblia, e no que diz respeito às críticas que o livro tem recebido, apenas posso dizer o seguinte: eu não me considero um especialista da Bíblia, nem para lá caminho, e até duvido que eu seja especialista de alguma coisa, mas, no que toca à Bíblia, principalmente o antigo testamento (mas não só), é certo que podemos encontrar coisas e situações que hoje nos parecem erradas e até horríveis. Mas não nos podemos esquecer de que a Bíblia constitui um conjunto de textos, que foram escritos por diversas pessoas (com diferentes naturezas e personalidades), em diferentes épocas e contextos, e onde podemos encontrar História, mitos, lendas, sabedoria, filosofia, visões, crenças, uma determinada linguagem, normas culturais, etc, ou seja, um conjunto de aspectos que se juntam todos num só livro (ou livros). Daí a sua riqueza, independentemente da leitura ou interpretação que cada um possa fazer. E no que concerne a interpretações, isto nem sempre é assim tão simples, pois, segundo alguns teólogos, torna-se necessário contextualizar e não cair no erro de realizar interpretações literalistas. Depois também existem várias formas de interpretar certos textos. Há suficiente simbolismo presente e, para alguns, torna-se possível fazer uma ponte com outras correntes de cariz mais esotérico, no sentido de encontrar semelhanças em termos de sentido e mensagem, embora, como sabemos, nem sempre existe unanimidade. Por isso, em grande parte, depende sempre um pouco do tipo de leitor e das suas predisposições.

Na minha opinião, e não sendo minha intenção fazer proselitismos, este tipo de textos precisam sempre de filtros, os tais filtros culturais, é necessário tentar pelo menos tirar as “vestes culturais” e ver a parte nua que se esconde por detrás. A Bíblia não contém a verdade, a Bíblia (assim como outros textos) contém perspectivas dessa verdade, e nem todas são perfeitas. E embora possamos dizer que o Deus abraâmico (conceito que pouco se assemelha à visão taoista, por exemplo) é o deus do livro todo, se repararmos, isso não é bem verdade porque podemos notar que esse Deus vai mudando, vai até evoluindo… (pessoalmente, preferiria usar outra palavra em vez de Deus, talvez diria que é uma realidade experienciada por algumas pessoas, não necessariamente aquelas que escreveram os textos… E nem sempre experienciada, mas, não raras vezes, simplesmente intuída e misturada com bagagens culturais).  

Por exemplo, podemos encarar o dilúvio como uma história baseada em factos, uma vez que podemos encontrar mitos de dilúvios um pouco por todo o lado…

Outro aspecto a salientar é a tradução. As traduções podem alterar o sentido de certas frases. Isso tem sido abordado também.

Pode até ser um cliché, mas também gostaria de dizer que, embora haja diferenças entre as religiões (sim, essas diferenças existem), é bom lembrar que, lá no fundo, todas falam do mesmo e todas partilham a mesma raiz, pelo menos essa é a minha visão. Por isso, é pena que algumas pessoas, sendo fiéis de determinada religião, não consigam tomar consciência disso, e como resultado, temos as consequências que todos conhecemos. Apesar de alguns esforços relacionados com ecumenismo, diálogo entre religiões, etc. A ciência (ou ciências) também não tem de estar completamente de costas voltadas para a religião, e nesse sentido têm sido realizados também alguns diálogos, até com o budismo, por exemplo, o que me parece interessante. Sem esquecer que a religião não é a única fonte de espiritualidade, digamos assim, existem outras tradições, filosofias, práticas e sistemas, até mesmo a própria literatura, etc…  

Quanto ao ateísmo, tema que surge muitas vezes associado à religião e à crítica às religiões, apenas tenho (e temos todos) de respeitar as ideias, filosofias, e crenças de cada um, sejam essas ideias partilhadas por ateus ou não. Contudo, posso e devo dizer que assim como existe o tão amplamente falado radicalismo, fanatismo ou fundamentalismo religioso, também existe o fanatismo e o radicalismo ateu. Por isso, é bom alertar as pessoas para este facto, porque muita gente pensa que os radicais apenas estão do lado da religião… Já sabemos que os ateus, em princípio, não saem por aí a matar ninguém, seu modus operandi é distinto, assim como nem todos os fundamentalistas religiosos matam pessoas…  

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